23 abril, 2017

A senhora apareceu-lhe


A senhora apareceu-me

A senhora apareceu-me!... Aparição, visão, sonho ou fantasia?
Dormia eu a sesta à sombra duma azinheira (numa manta de retalhos, pois claro!) quando uma senhora brilhante, não tanto como o sol, chegou à minha beira.
Não me disse para a louvar por ser celeste,
Não me sugeriu que sofresse para lhe agradar,
Não me exigiu que lhe agradecesse a força do meu trabalho,
Não me pediu que lhe suplicasse a felicidade,
Não me rogou que lhe repetisse como um papagaio preces e avés,
Não me segredou guerras futuras se não a venerasse,
Não me culpou pelos meus prazeres carnais,
Não disse nada.
Não vinha de calças, nem de saia comprida, nem de mini-saia.
Nua e serena, aproximou-se. 
Só uma senhora assim para me pôr de joelhos.
Pôs-se de joelhos também.
Enrolámo-nos na manta de retalhos. Paz, amor e sorte.
Azar, era dia 13, um melro largou-se no meu rosto.
Acordei.
Da santa ou companheira, nem sinais.
Dei um salto.
Falei alto
À sombra duma azinheira:
25 de abril sempre! Fascismo nunca mais!

22 abril, 2017

O administrador do condomínio


O condomínio é um condomínio de prestigio, ainda que haja, entre os muitos que aí residem, quem passe por dificuldades na vida.  
O condomínio teve tempos em que o  condómino administrante se repetia de eleição em eleição. Era um homem de presença forte, humor que baste, de ironia fina e se alguém com ele se zangasse, desarmante, sorria. 
Ninguém sabia, até se saber, que o condómino do quinto frente, teve ferragens renovadas, à conta do arranjo da fechadura da porta da entrada. 
Favor do administrador que, prestável, estendeu o serviço do rés-do-chão ao quinto.
Ninguém sabia, até se saber, que o condómino do último piso recuperou o terraço por conta da reparação do piso da garagem. Favor do administrador, prestável, que estende a obra do terraço à garagem.
Ninguém sabia, até se saber, que o sexto esquerdo, o vigésimo quarto direito, e outros quantos condóminos foram servidos por amáveis serviços. 
Quando era chegada a hora da prestação de contas, na reunião de condóminos, havia quem comentasse que o condomínio era caro mas, de pronto, se elevavam as vozes referindo o prestígio de se viver em tal condomínio, que em todo o país não havia vida mais feliz.
Perante o plano de obras e o correspondente orçamento o administrador voltava a ser reeleito. E foi assim, durante muito tempo.
Hoje, depois de ausência forçada, o ex-administrador está de volta. 
E diz o condómino da cave esquerda, em casa onde o sol mal entra.
«O homem "onera"! Mas qu´importa, se faz obra...»
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NOTA DO AUTOR: O referido condomínio é ficção e o dito administrador é personagem inventada, qualquer  semelhança com a realidade é mera coincidência.

20 abril, 2017

Poesia (uma por dia) - 92


INACABADA FLOR DE ABRIL
Hoje vi com os meus olhos
uma santa mulher
asfixiar um pássaro
nas mãos
só para desenhar no chão
a dor que sentimos

chamei-a
para deixar nas areias
um beijo côncavo
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos abertos
todos os ritmos das marés

chamei-a
para esgrimir contra
a invenção dos destinos
erguer o seu corpo
recolher todos os grânulos disponíveis

Hoje vi uma mulher amada
esculpida na praia
a despontar nas areias

inacabada flor de Abril

Eufrázio Filipe
(poema a incluir na próxima colectânea)